0 comentário(s) terça-feira, 17 de Novembro de 2009

Na consciência, que me ponha a sua mão Hipócrates. No coração, que a ponha Homero.

1 comentário(s) sexta-feira, 30 de Outubro de 2009



Ilya - They Died For Beauty

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Nos dias 30 e 31 de Outubro, é por aqui que estou, de corpo e alma. Para morrer de sede. Para morrer de amor. Para morrer de dor. Para morrer de rir. Porque é que tudo isto me parece sempre poesia? Porque entro eu sempre nesse jogo, onde sou o jogador e a peça que se joga? Freud, Freud...



Não vive em mim meu viver,

e em tão alta vida espero

que morro de não morrer.

(Santa Teresa de Ávila)

2 comentário(s) domingo, 25 de Outubro de 2009

Não, o problema não é que, para teu sobressalto, a caixa de Prozac esteja vazia, e então já não o possas engolir com as torradas, conforme o médico to prescreveu. Não é a impossibilidade de tomares o primeiro café do dia, por teres acordado tarde. Não é o mau feitio do teu superior, que hoje te encheu a cabeça por não teres concluído o trabalho que ele exigiu para ontem. Não é, também, o já não caberes nas calças que compraste há um mês, resultado do distúrbio nervoso que te estimula o apetite. Não é o fumares para comeres menos, na esperança de voltar a caber nas tais calças. Já te devem ter dito que a culpa é da crise, do salário medíocre que recebes por enfrentar leões. Mas não acredites, também não é esse o problema. Assim como não o são os ciúmes de toda a fêmea que olha para o teu marido, essas galdérias. Não é a doença, não é o medo. Isso são só consequências. Não são os políticos corruptos nem os futebóis da vida. Não é o existirem ateus. Não é o teres nascido numa vila que se crê país. O problema não é teres um passado que matou o futuro; aliás, de futuros resta sempre alguma coisa que um homem possa viver.


O problema, ó tu que lês, o problema, ó tu que escreves, ó tu que sabes com todas as fibras do teu coração batente que o que digo é verdade, e até já o pensaste, já todos pensaram, já todos sabem, já todos quiseram afundar a cabeça ardente na terra onde cresce a árvore da vida, ou no sal do mar, ou no céu estelar, ou até no fogo, fogo que arde dentro do fogo é um só. Já todos quiseram, poucos tentaram, alguns morreram.


Diz-me se minto. Todos os problemas surgiram quando começámos a afastar-nos da Natureza.

3 comentário(s) quinta-feira, 8 de Outubro de 2009

«Tantos buracos, Joana, tantos buracos e abismos. Escreve alguma coisa alegre, que uma pessoa não pode ser só isto. Que esburacado é este lugar, Joana.»


É curioso, sabe. É curioso que certa recordação me trouxessem, essas suas palavras. Lembra-se? Quando era pequena, a minha mãe tricotava para mim mantas coloridas de lã, das quais passei a depender para conseguir dormir. Foram três, julgo. Chucha na boca e dedos enfiados nos orifícios macios da manta. De certeza que me encontrou nesta pose, pouco digna se a vir com os olhos de hoje. O que aconteceu às mantas, uma atrás da outra, é que as destruí. E gostava muito delas, acredite. A manha era esta: enfiava os dedos, como se estivesse a tricotar ao contrário o tricot que a minha mãe fizera, e trabalhava durante meses a fio, até a desfazer por completo: abria-lhes buracos, grandes buracos que aumentavam de dia para dia. No final, só sobravam os bordos das minhas queridas mantas.


Vê? Foi aí que comecei a esburacar a realidade. E ainda nem sequer sabia que o mundo era um caos, que o tempo era errado e o lugar inadequado. Não pertenço ao mundo que conheço. Hoje, sorrio ao lembrar-me disso, e ao inventar estas relações metafóricas que tanto me divertem. É verdade. Foi nessa altura que me tornei assim, subversiva.

3 comentário(s) domingo, 20 de Setembro de 2009






Do filme Lucia y el sexo


-Pues que sepas que yo con quien de verdad quiero vivir es contigo. Y no es porque te vea muy solo, es porque estoy completamente enamorada de ti. Loca perdida, ya me ves.


-¿Y, algo más quieres de mí?


-Sí. Que con el tiempo, y la convivencia... Te acabes enamorando de mí. Por supuesto.


-Eso está hecho, Lucía.

2 comentário(s) segunda-feira, 14 de Setembro de 2009

Mas hoje, como de costume, eu vomitei a derrota.

1 comentário(s) domingo, 13 de Setembro de 2009

Depois de milhões de anos de evolução biológica, primamos por ser os animais que mais engolem. Engolimos sapos vivos, quando é necessário, o fumo de carros sem filtro, certas pessoas, bocados de jornal, outras pessoas mais, casamentos intragáveis, palavras mal ditas por telefone, cartas que nunca se escreveram, erros de ortografia, bancos de rua mal empregados, a incompreensão, as velhas no autocarro, queixas e mais queixas, o lixo que alguém não separou nem deitou fora, eleições fictícias, lágrimas, o pão duro da manhã, orgasmos de outrém, silêncios forçados, o passado, o orgulho, a vida. Engolimos tudo. Sem digerir. Somos os maiores autófagos de que há memória.

999
1 comentário(s) quarta-feira, 9 de Setembro de 2009

Depois de semanas de estio ininterrupto, Lisboa acorda-me num tibre inesperado. Trovoadas vibrantes e chuva intensa, que parecem querer estilhaçar-me a janela. 9/9/9. Biblicamente, nada menos que justiça divina e verdade. A verdade, quando vem, é mesmo a doer. Apropriado.

Bom dia!

1 comentário(s) terça-feira, 8 de Setembro de 2009

Vede, vede vós a minha ilha. Desamada pelas gentes, coroada pelos muitos e diversos locus amoenus, que nas alturas guarda. Subi-a, como aos seios de uma mulher se chega, arfantes e entontecidos de beleza. Rendei-vos. É mesmo assim, ela. Mística. Obrigada, Tio, por partilhá-la. No vídeo, o planalto do Paúl da Serra, repasto das minhas memórias. E há mais de onde este veio.

Passámos a grande Ilha da Madeira,
Que do muito arvoredo assi se chama;
Das que nós povoámos a primeira,
Mais célebre por nome que por fama.
Mas, nem por ser do mundo a derradeira,
Se lhe aventajam quantas Vénus ama;
Antes, sendo esta sua, se esquecera
De Cipro, Gnido, Pafos e Citera.


Lusíadas, Canto V

0 comentário(s) sábado, 5 de Setembro de 2009

Um dia, Meredith caiu acidentalmente nas águas geladas de um rio. Ficou tão branca, tão morta. Ninguém negará que Meredith sempre fora uma heroína, não. Mas a verdade é que sabendo nadar, não nadou. Porque nesse dia, Meredith desistiu. Desistiu, irresistivelmente. Há quem lhe chame de suicídio, e neste caso seria um até bem conveniente. Perfeito. Se hoje ela vive é porque há alguém que, por amor, prometeu respirar por ela. Viver por ela, salvar por ela, morrer por ela. Por Meredith. Na angústia de que um dia Meredith recusasse o ar que, por dois, ele prometeu respirar. Angústia. Porque no fundo, por muito amor que lhe tivesse, por muitas noites que dormisse a seu lado, por muito que jurasse a eternidade, ele sabia que Meredith se demitia, a cada dia, de viver.


Há histórias que poderiam ser a da nossa vida. Para mim, que sempre vivi dentro de histórias com a mesma paixão com que fora delas, ou mais até, as histórias são tantas vezes "a água inicial de outros sentidos", esse despertar. Sou uma jovem que deseja ser velha, e não queria que assim fosse. Há tanto que eu gostaria de fazer, sabes? Tanto. E não é nada do que estou a fazer agora. Mas tudo bem, ainda devo ter tempo, e firmeza para até lá aguentar.


Deveria acreditar no que acabo de dizer, e não acredito. Porquê, dizes-me? Porquê? Se tu não queres viver, Mãe, porque hei-de eu querer? É como a história da Meredith, que acima contei. Um dia, por muito que a queiram salvar, ela morrerá, e outros morreram com ela. Como eu estou a morrer contigo. E a história repetir-se-á, como uma herança maldita.


Sou tua, não haja dúvidas. Se tenho garra, é porque a tens. Se caio, é porque cais. A minha alma imita a tua. Sabes que ninguém nos pode parar, ninguém. Eu quero viver, Mãe. Por favor, não nos deixes morrer assim.

1 comentário(s) quinta-feira, 3 de Setembro de 2009

Pensamento ao acordar: Está um belo dia para ser feliz.
Está um belo dia. Está um dia. Está. Estará.
Um dia.

0 comentário(s) quarta-feira, 2 de Setembro de 2009



Anda por aí um sururu endiabrado. Diz-se que Setembro trará o romance do ano, e os prognósticos não fazem a coisa por menos. Segundo Francisco José Viegas, 2666 "é um romance grandioso, maior do que o Ulysses [de James Joyce], uma espécie de narrativa de Borges em ponto grande".
Eu, que apanho facilmente estas epidemias, já fui contagiada. Até escrevi, imagine-se, sururu endiabrado numa frase. E ainda há quem se preocupe com a gripe...

0 comentário(s) terça-feira, 1 de Setembro de 2009

Uma jornalista de uma conhecida estação televisiva protagonizou um episódio insólito. Desafiando os preceitos por que se rege a comunicação social, fez um voto de silêncio de quinze dias, em que se compremetia a não emitir qualquer juízo por linguagem falada, escrita ou gestual, exceptuando, nesta última, "o imprescindível à convivência". Na declaração que fez para o telejornal, em directo, a jornalista justificou a iniciativa com "a crescente dificuldade em escutar, inversamente proporcional ao vício de falar e ter opiniões", e acrescentou: "os anos de profissão levam-me a crer que, hoje, por mais que falemos, não estamos predispostos a ouvir muito além da nossa voz".
Porém, ontem, naquele que seria o sétimo dia de voto, a jornalista foi hospitalizada com indícios de ataque de pânico, tendo-lhe sido diagnosticado um esgotamento nervoso. Segundo declarações dos familiares, a ruptura foi inesperada: "Nada levava a crer que este seria o desfecho. Durante este período, revelou-se extremamente atenta aos demais, e fez questão de manter a convivência social, pois queria forçar-se a omitir os seus valores e ideais. Não notámos qualquer problema com ela. Mas afinal, revelou-se muito alterada e revoltada. A primeira palavra que disse foi um impropério impronunciável."
O caso, porém, teve sucedâneos. Nos dias que se seguiram ao directo, várias figuras públicas aderiram à iniciativa. Em pouco tempo, o caos parece ter-se instalado, com vários pedidos de demissão e até ameaças à integridade física dos envolvidos. O caso mais inoportuno parece ser o do Primeiro Ministro, que ainda não voltou a surgir em público depois de, na inauguração de uma escola primária, se ter impacientado com os insultos de algumas crianças.

0 comentário(s) quinta-feira, 27 de Agosto de 2009

2 comentário(s) segunda-feira, 17 de Agosto de 2009

Mulher participa desaparecimento do seu Super Ego. Estima-se que a ocorrência não seja recente, pois a proprietária suspeitava, a princípio, tratar-se de "mais uma crise depressiva", tendo ignorado o sucedido. Em chorosas declarações, apela ao bom senso do evadido. "Costumava levá-lo atado ao pulso, por um cordel, pois sempre teve o hábito de pairar demasiado alto. Não foi falta de advertimento, pois eu dizia-lhe que precisava dele mais perto de mim. Não sabia como acompanhar a sua grandeza de espírito. Até subia a árvores e telhados, para o convencer a ficar comigo, e por mais que uma vez tive quedas terríveis. Mas ele nunca se contentou com as minhas limitações. Se ajudar, o sonho dele era cruzar a troposfera, ser gasoso e respirável por nações inteiras. Tinha um poema tatuado no corpo. Era o poema da minha vida".

3 comentário(s) quarta-feira, 5 de Agosto de 2009

Eu, que tinha por hábito enamorar-me de personagens dos livros, perdi-me de amor por ti, filho de um romance que aconteceu antes de o terem escrito. Alimentei a ilusão de que, talvez, minhas mãos tivessem virtude para o escrever. E eis que dou por mim, céus, a vivê-lo.

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O Medo é o que de mais parecido há com o Amor. Teme-me. Mas só até ao dia em que perceberes que, evidentemente, não valho tanto.

0 comentário(s) terça-feira, 4 de Agosto de 2009

Quem me conhece, sabe que sofro de apego doentio às memórias. Há uma sequência que conheço ad nauseam: traços mnésicos avulsos, enredos absurdos que deles se desenvolvem e, por fim, becos sem saída. Até à náusea. Julgo ser esse malfadado vício, que me tira a paz em noites oníricas. Certas vezes, sonho que escrevo um poema sublime, e sei-o antecipadamente, visceralmente, enquanto o escrevo. O sonho projecta-me, perfeito, alucinogénico, para uma esfera de impossível sensibilidade, da qual demoro a emergir. Quando acordo, ressacada, dói-me, nesse poema, cada palavra que esqueço. De manhã, o poema não existe.


Mas falava eu de memórias. Não quero que elas me deixem, mesmo que me furtem algo, em troca dessa permanência. Porque sou miserável, se não as tenho. Lembrava-me, há pouco, do rosto amadurecido de Justine, com quem vivi durante o mês de Março. Vinha de tão longe, a Justine. Consigo ver a Vilnius que ela me descrevia: de um lado a aldeia que queria deixar, de outro o centro histórico onde sonhava poder viver. By now, I cannot afford, but someday... Um dia, Justine. Gravaram-se-me algumas das frases que me disse esta lituana. Uma noite, ao confessar-me o seu amor pelos livros, e acrescento eu, por esse saber inútil que é o das humanidades, amor que a seguiu durante os seus trinta e poucos anos, Justine deixou cair um lamento que não esquecerei. Knowing a language is not a job [saber uma língua não é emprego].


Que será isto, então, Justine?

0 comentário(s) domingo, 2 de Agosto de 2009

«se eu abria os olhos todas as manhãs, se, correndo à janela, via passar na rua senhores e senhoras ainda vivos, é que, do crepúsculo ao alvorecer, um trabalhador lutara, fechado em casa, para escrever uma página imortal que nos valia esse adiamento de um dia.»

[...]
«A considerá-lo do alto do túmulo, o meu nascimento tornou-se um mal necessário, uma encarnação inteiramente provisória que preparava a minha transfiguração; para renascer, era preciso escrever, para escrever era preciso um cérebro, olhos, braços; concluído o trabalho, esses órgãos reabsorver-se-iam por si: à volta de 1955, uma larva rebentaria, e dela escapariam vinte e cinco borboletas in-folio, batendo todas as suas folhas para ir pousar na prateleira da Biblioteca Nacional. As borboletas não seriam outras senão eu. Eu: vinte e cinco tomos, dezoito mil páginas de texto, trezentas gravuras, entre as quais o retrato do autor.»



As Palavras, autobiografia de Jean-Paul Sartre

2 comentário(s) quinta-feira, 16 de Julho de 2009

Amor,


assim que leres este bilhete


- espera,
escrevo num guardanapo daqueles que usamos
à mesa, estranha textura, estranhas palavras
para se verem escritas num papel de levar à boca,
"vocês não comem cultura"
foi o que disse alguém importante,
talvez à boca se levem as coisas mais nobres
não fosse o céu da tua boca o que eu toco
quando te digo o amor -


dizia eu,
assim que leres este bilhete, saberás
duas coisas, saberás que fugi na noite
e que não tens por que te assustar,
(juro, não é por malícia o meu sono trocado,
oxalá não fechasses os olhos, tu
e meio mundo em penumbra
oxalá não houvesse temor a furtar-me à cama
e eu fosse o sossego das tuas pálpebras cerradas,
a noite é uma arena
sem gladiador, mas onde há feras habituadas a
ver morrer, e morrem, deus sabe o quanto se morre
por culpa do medo, eu só sei o quanto se morre
por culpa da solidão)


dizia eu,
saberás duas coisas:
uma, é que fugi na noite,
a outra, a outra é que
ti aspetto na única estação que me resta,
(até o futuro os governos sulfataram
e às fronteiras já só vão clandestinos)
e do que nos resta, amor,
espero que ainda nos reste a loucura,
é para ela que tomamos o primeiro comboio.

0 comentário(s) terça-feira, 14 de Julho de 2009


It's not
What you thought
When you first began it
You got
What you want
Now you can hardly stand it though,
By now you know
It's not going to stop
It's not going to stop
It's not going to stop
'Til you wise up


You're sure
There's a cure
And you have finally found it
You think
One drink
Will shrink you 'til you're underground
And living down
But it's not going to stop
It's not going to stop
It's not going to stop
'Til you wise up


Prepare a list of what you need
Before you sign away the deed
'Cause it's not going to stop

It's not going to stop
It's not going to stop
'Til you wise up
No, it's not going to stop
'Til you wise up
No, it's not going to stop
So just...give up

0 comentário(s) domingo, 12 de Julho de 2009

Há meses que o observo, discretamente. Desde que me mudei para cá, se a memória não me atraiçoa. Reconheço o privilégio do morar no lado solar de Lisboa, na transversal de uma amorosa avenida, muito dada à nobre alegria dos dias. Não me canso de fazer o trajecto até casa. Mesmo sob o irrespirável e grosseiro calor de Julho, e tendo de caminhar três quartos de rua para chegar ao meu número de porta, consigo sentir o odor herbáceo dos pequenos condomínios, que os vizinhos se esforçam por zelar. E os muitos latidos atirados aos transeuntes, sempre que um rival canino passeia o seu dono. É verdade: noto que, em pessoas de idade avançada, se torna penoso o passeio diário sem companhia. Felizmente, existem lulus de qualquer tamanho e feitio, com mais ou menos pelugem, e sempre com uma estranha semelhança com os donos; dizia eu, existe felizmente essa doméstica companhia que a solidão apadrinha.


E é quando saio ou regresso a casa, confesso, que secretamente observo um velho pintor: o meu vizinho da frente. Um homem que invariavelmente, todo e todos os dias, admiravelmente pinta. Já lhe conheço alguns tiques artísticos e, embora nunca consiga ver a tela, imagino o quadro embrionário que cresce no seu estúdio, pelos trejeitos do pincel. Invejo o ritmo com que entram e saem telas, desejando que na minha secretária, analogamente, se escrevessem e escrevessem páginas de enlevo. Inútil. Estou tremendamente só, e a literatura não quer nada comigo. Ele vive sozinho, o Pintor, mas aposto que o próprio nem dá por isso. Sozinha estou eu, que o observo, vazia, enquanto imagens pensadas se tornam reais. Muitas vezes, sou tomada por essas hereditárias crises de ansiedade. Quando me lembro, no meio dos suores frios, vou à janela procurar algum sossego. Que brutal, é a mecânica da Arte. Às vezes, não o consigo distinguir de um cientista debruçado sobre tubos de ensaio, prestes a descobrir um freio para a morte. O amor, transpirado em todos os poros, é o mesmo. Admiro-o. Nutro por ele a ternura que há pelas coisas que só se conhecem à distância. E que assim permaneçam, pois entretanto já as fiz minhas. Ó tocadora de harpa, se eu beijasse / Teu gesto, sem beijar as tuas mãos! (Fernando Pessoa dixit)


Amena noite, esta. Mas não para mim. Se alguma vez escrever um romance, gostava que o Pintor fosse dele personagem. Se alguma vez eu for mais que este mero oco céu alto.

0 comentário(s) quarta-feira, 1 de Julho de 2009

Nos últimos tempos, tenho sido acusada, à boca pequena, de não ter metas concretas. Por outras palavras, o meu crime é a falta de desvelo e o rápido desinteresse pelas presas que sigo, de longe. Mais, não sigo já presa alguma, qual leoa que deixou de saber o que é a fome, mas mantém vivo o gozo da caçada. Não nego. Estou faminta. Os dias são putas que recuso comer, por muito que se me ofereçam umas atrás de outras. Não tenho culpa, enojam-me. Sonho outras musas, outra pátria. Outro viver. Não é este sossego / que eu queria, / este exílio de tudo, / esta solidão de todos. // Agora / não resta de mim / o que seja meu / e quando tento / o magro invento de um sonho / todo o inferno me vem à boca*.
Todo o inferno me vem à boca. Não mais perguntem por mim, ou todo o inferno me vem à boca. O mundo, esse grande bordel, ensina-me que às vezes é imperativo fornicar sem cobiça, cerrando os olhos à meretriz, em virtude de uma lei maior. Continuarei a escrever. Torto, por linhas direitas. Não me acompanhem, peço. Estava já escrito que, nos sonhos, eu seria uma leoa tresmalhada. Aceitemo-lo, sem mágoas. A vós, a minha eterna gratidão. Adeus.


*Mia Couto

1 comentário(s) quinta-feira, 18 de Junho de 2009

Falta-me audácia para cantar a poesia. Talvez nunca eu soubesse, cantar. Mas cantem, por favor. Cantem sempre. Porque se eu emudecer, definho. Mas se ensurdecer, não existo.

O regresso dos Oquestrada, com Oxalá te Veja


2 comentário(s) domingo, 7 de Junho de 2009

Segundo ela, a poesia:


[...]

o poema nasce num só
homem
para comer todos os outros.
Quando um poema cresce,
não cresce nada mais sem que
pelo poema.

[...]

Poesia se sangra pelo nariz
e diz-se só para a mamã
que foi culpa do sol.
A poesia existe sem a nossa mãe.
A poesia está aí para se apoderar
dos nossos filhos.

Fazer poesia é perdê-la
para o mundo.

E não ter pena dele.

2 comentário(s) sábado, 23 de Maio de 2009



I'm lucky, I'm in love with my best friend

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“Sedare dolorem opus divinum est” (“Aliviar a dor é obra divina”)
Hipócrates


Como palavras nobres que são, as proferidas pelo famigerado Dr. Fernando Nobre no seu discurso de doutor Honoris Causa, evocam o percurso missionário e, muitas vezes, abnegador, de um médico cujo alvo de cuidados é, nada mais, do que a Humanidade inteira. Ao descrever o germinar do seu ideal de vida, com apenas quinze anos, sublinha o desejo de se fazer homem, à imagem e semelhança de um médico, Dr. Schweitzer, para quem a Medicina não foi só profissão, mas traço orientador de carácter. Tendo consolidado a sua formação superior, as carreiras hospitalar e docente, apesar de apelativas, “foram sendo gradualmente preteridas”, segundo o próprio, em virtude da carreira de médico missionário humanitário. Este dilema, que se poderia ter solucionado pela escolha do caminho, dentro do possível, menos precário, revela uma Medicina versátil, não estanque, capaz de ser desdobrada em diferentes áreas de influência. Sans Frontières, assim a designou um grupo de médicos franceses, desde 1971, relembrando um conceito que atravessou os séculos, correndo o risco de se perder com a recente ascensão do tecnicismo científico. A este nível, tocamos no ponto fulcral do discurso do Dr. Fernando Nobre: o ideal holístico da Medicina, que alia a vertente ético-humanitária à técnico-científica.

Se nos reportarmos ao nascimento da Medicina, antes sequer de ter sido reconhecida como ciência, chegaremos à conclusão de que a preocupação com o alívio da dor, com a cura de maleitas e feridas, existe desde que existem a dor, as maleitas e feridas. Por conseguinte, a prática médica tem o mesmo berço e idade que a Humanidade. Nesses tempos remotos, o Homem sentia-se impotente perante a doença, que era tida como independente da vontade e estranha ao conhecimento, controlada por entidades superiores. O seu papel consistia, então, em aplacar os efeitos das enfermidades.


Centrados neste propósito, amealharam conhecimentos empíricos, resultantes do contacto com as mais variadas alterações da saúde humana, e a tentativa constante de as contrariar. Crenças foram assumidas, em diferentes civilizações, como linhas orientadoras da prática médica no seu tempo e contexto. Se atentarmos nas práticas e convicções que foram tidas em conta nas civilizações antigas, encontramos diferenças na forma como se expressam a fé e o tratamento aos enfermos. Porém, apesar de todas se socorrerem de uma medicina mágica e supersticiosa, existiam normas, ou pelo menos, princípios claros destinados àqueles que a praticavam. Hoje, falamos em termos abstrusos como Direito Médico, Código Deontológico ou Responsabilidade Civil. Mas recuemos, e vejamos de que preceitos se revestia a Medicina na sua mocidade.


Desde o Código de Hamurabi, com artigos exclusivamente dedicados aos médicos, relativos aos seus direitos, obrigações e honorários, até aos célebres Conselhos de Esculápio, que elucidam os aspirantes à Medicina, sem circunlóquios, para as dificuldades e provações da profissão; estes pensamentos, extremamente actuais pela sua lucidez, alertam já para a necessidade ética da prática médica, que chega aos nossos dias, parecendo recente.


Inegável é reconhecer que algo mudou, quando a Medicina começou a adquirir índole científica. Podemos situar cronologicamente essa mudança com Hipócrates, embora reconheçamos que a História não é linear. É que a ciência, ao permitir dissipar o desconhecido, suscita o mais poderoso motor do génio humano: o fascínio. E os detentores do conhecimento, neste caso da cura, ganham, inevitavelmente, influência sobre os demais, num fenómeno que poderemos definir por endeusamento. A Medicina é, também, uma questão de poder, sendo premente delimitar as fronteiras do seu procedimento.


No prefácio de “A Responsabilidade dos Médicos”, o Prof. Dr. José António Esperança Pina sublinha a necessidade de uma “atitude íntegra, ampla visão e discernimento esclarecido” em toda a tomada de decisão. Elege, ainda, os quatro princípios fundamentais que devem nortear cada dia da vida de um médico – pois a Medicina não é profissão, é forma de vida. São eles o desprendimento do lucro financeiro, “realizado à custa da saúde de quem quer que seja”, a competência e a constante actualização dos conhecimentos previamente adquiridos, visto que a ciência não é estática. O quarto princípio, em nada menos relevante que os anteriores, recorda o motivo pelo qual a Medicina precisa existir: os homens. Os procedimentos são outros, e necessários, é certo, mas hoje temos não só o dever de tratar com eficácia, como o de não descurar do sentido de solidariedade e dignidade humana. Por outras palavras, “poder humanizar máquinas e aparelhos, em que com frequência se perde o doente e se esconde a pessoa, e que torna o acto médico tantas vezes anónimo e por vezes despersonalizado”.

Enveredar pela Medicina missionária humanitária é, talvez, o modo mais extremo de fazer jus ao ideal filantropo, pela renúncia ao conforto e à estabilidade e pela constante exposição ao risco. Não é, no entanto, uma escolha de recurso para médicos pouco realizados; o percurso notável do Dr. Fernando Nobre, especializado em Cirurgia Geral e em Urologia em Bruxelas, e hoje patrono da AMI, é o perfeito dissuasor desse juízo precipitado.

Contudo, a componente ético-humanitária não está confinada aos médicos missionários: é indissociável de qualquer prática médica. Quando, no seu discurso de doutor Honoris Causa, o Dr. Fernando Nobre afirma com tenacidade que “as piores enfermidades da Humanidade são a intolerância e a indiferença”, não deixa de ser ousado. Ao declará-lo, assume o compromisso da Medicina em intervir em bem mais do que aliviar a dor, mas também em defender valores humanos que são “sistematicamente esquecidos ou mesmo conscientemente espezinhados”.

Para que tenhamos “futuros médicos bem inseridos no contexto social mundial”, há que antecipar a aquisição dos princípios que irão reger a actividade futura, como sejam a tolerância, a humildade, o estoicismo e o respeito. No epílogo dos Conselhos de Esculápio está, talvez, o mais honesto testemunho daquilo que é decidir ser médico: renunciar ao lucro e ao conforto, estar preparado para as contrariedades, satisfazer-se com o dever cumprido. Num derradeiro conselho, “se anseias conhecer o homem, penetrar em todo o trágico do seu destino, então faz-te médico, hoje mesmo”.

2 comentário(s) terça-feira, 19 de Maio de 2009



Um dia, olhou para mim e disse-me que eu lhe fazia lembrar um caleidoscópio. Nesses dias de angústia permanente, poucas coisas me caíram tão mal. Um caleidoscópio? Sabe, essas engenhocas para onde ficamos a olhar, ávidos, enquanto imagens inesperadas se criam, umas no ventre das outras. Um bacanal, pensei. O ardil, está em você não saber que imagem se segue. Por isso, não se atreve a deixar de olhar. Um caleidoscópio, porra? Antes me comparasse a um fresco, imagem gravada em argamassa, que não se transfigura enquanto se está a olhar. Ou a uma escultura, coisa palpável, que tenha atravessado a erosão do tempo sem perder a cabeça. Antes isso tudo, coisas paradas, que a prostituição imagética de se deixar fotografar em todas as poses. Há cidades que despertam em mim esse tipo de estranheza e fobia. Acho que na noite de Las Vegas, cidade gasosa de luzes néon, me lembraria dessas palavras. Um caleidoscópio.

Se eu ao menos pudesse acompanhar as imagens de palavras, a minha alma não seria esta auto-estrada onde diariamente me atropelo. Escrever é a minha forma de pensar. Porque implica tempo, e a preciosidade de uma coisa que implica tempo, neste tempo que já nem tempo tem, é inimaginável. Mas as palavras segregaram-me, e passei a ser um filme mudo com maus actores. Lembro-me de ter ouvido alguém dizer, que não se pensa necessariamente com palavras. Achei inverosímil, porque não o sei fazer de outra forma.

Acabei de receber um telefonema. No início deste parágrafo, contenho-me para não dar um destino diferente a este texto, nomeadamente o de o eliminar. Uma vez mais, o caleidoscópio que se transfigura, sem que se espere. Mas você tem medo de quê, quando mede o que diz? Tendo a pensar que deixo grandes verdades nas entrelinhas, mas esqueço-me de que só eu as sei ler. Por isso, se quero mandar alguém à merda, sou eu quem fica na merda que pensei ter dito. Como alguém que diga “vou matar-me” e que seja tomado literalmente, quando na verdade o que diz é “quero mudar”. Matar é o primeiro passo para renascer. Digo nãos às prestações. Digo não quando fumo um cigarro e o deito fora, quando disparo na bicicleta na demanda do vento, quando durmo nua, quando ando sozinha na madrugada ou desejo fazê-lo, quando minto ou oculto, quando me recuso a dormir na cama, quando respondo com silêncio à chantagem emocional, quando falto às minhas obrigações, quando procuro as palavras. São nãos às prestações, mal ditos e malditos, à boca pequena. A minha avó lembra-se de que, em pequena, quando eu caía e corriam em meu auxílio, me erguia depressa e dizia “avó, quase que caía!”. E dizia-o de joelhos esfolados. A respeito disto, concluo que não sei estar no caos, sem esbracejar para fora dele. E por vezes, é preciso demorar-se no caos, para saber falhar melhor. Samuel Beckett dizia: “Ever tried. Ever failed. No matter. Try Again. Fail again. Fail better.”

O que eu quero dizer, de forma terrivelmente pouco erudita e coerente, é que sim, estou esfolada até ao osso. E que acabo de mandar um tropel de coisas à merda. Perdoem-me, por favor. Perdoem-me. Mas é com maiúsculas. Merda.

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