quinta-feira, 8 de Outubro de 2009

«Tantos buracos, Joana, tantos buracos e abismos. Escreve alguma coisa alegre, que uma pessoa não pode ser só isto. Que esburacado é este lugar, Joana.»


É curioso, sabe. É curioso que certa recordação me trouxessem, essas suas palavras. Lembra-se? Quando era pequena, a minha mãe tricotava para mim mantas coloridas de lã, das quais passei a depender para conseguir dormir. Foram três, julgo. Chucha na boca e dedos enfiados nos orifícios macios da manta. De certeza que me encontrou nesta pose, pouco digna se a vir com os olhos de hoje. O que aconteceu às mantas, uma atrás da outra, é que as destruí. E gostava muito delas, acredite. A manha era esta: enfiava os dedos, como se estivesse a tricotar ao contrário o tricot que a minha mãe fizera, e trabalhava durante meses a fio, até a desfazer por completo: abria-lhes buracos, grandes buracos que aumentavam de dia para dia. No final, só sobravam os bordos das minhas queridas mantas.


Vê? Foi aí que comecei a esburacar a realidade. E ainda nem sequer sabia que o mundo era um caos, que o tempo era errado e o lugar inadequado. Não pertenço ao mundo que conheço. Hoje, sorrio ao lembrar-me disso, e ao inventar estas relações metafóricas que tanto me divertem. É verdade. Foi nessa altura que me tornei assim, subversiva.

3 comentário(s):

Anónimo disse...

Subversiva e silenciosa!

José Lemos

Vítor Sousa disse...

Penélope?

Patrícia Lino disse...

Tantas saudades, Joana, tantas saudades e saudades.

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